quarta-feira, 23 de março de 2011

Revolução Feminina


Nós já vimos este filme: a mulher heroína achava que o céu era o limite. E corria sem parar para garantir a perfeição em todas as áreas: trabalho, casamento, filhos, amigos. Resultado: stress ou ressentimento por não sentir seu esforço valorizado. Hoje, a revolução feminina é outra: continuamos ligadas ao que acontece ao nosso redor, mas já aprendemos que nem tudo é responsabilidade nossa. É possível – e desejável – escolher as batalhas e poupar fôlego para o que importa. Estamos em um novo patamar: deixando de ser “multitarefa” para ser “multi-interessada”.
Para situar melhor o estilo multitarefa, imagine a seguinte situação: você está organizando um jantar para amigas que não vê há tempos e quer tudo impecável. Por isso, se encarrega de cada detalhe: compras, jantar, decoração... Arruma um tempinho até para procurar fotos antigas dessa turma e preparar um álbum de recordação. No dia marcado, você passa horas no mercado e na cozinha, mal tem tempo de conversar com todas as convidadas. Até que, na despedida,elas dizem a palavra mágica: estava tudo perfeito! Será mesmo? Ocupada em servir e fazer acontecer você nem conseguiu curtir direito suas amigas queridas. Esse é o retrato da mulher multitarefa,que, com o mesmo afinco com que prepara um encontro informal, cuida da carreira, dos filhos, da casa, da vida conjugal, social do MBA e de tudo mais que aparecer pela frente. Enfim, uma heroína que realiza 1 001 tarefas por dia, mas se esquece do principal: o bem-estar e, sobretudo, o prazer. E quantas de nós não levam a vida assim, exigindo o máximo de si a cada passo? Será que ainda precisamos mostrar para o mundo que damos conta de tudo para nos sentirmos dignas de respeito e admiração? E de o
nde veio esse modelo de mulher 1 001 utilidades?
A Ressaca
Os especialistas dizem que a origem está na revolução feminina, disparada entre 1960 e 1970, quando as jovens lutaram para mostrar que tinham competência não só para administrar o lar mas para conquistar o mercado de trabalho. Essa fase da história feminina foi uma guerra – tivemos que abrir caminho à força, lutando contra machismo e discriminações variadas e tendo que lidar com a culpa por dar menos atenção à família e aos filhos. A boa notícia é: vencemos. Ufa! Claro que não é fácil manter todas essas conquistas,mas o momento é outro. Ao comparar as gerações,isso fica evidente. “Minha mãe teve uma vida mais desafiadora do que a minha”, diz Adriana Fonseca de Souza, empresária e designer, 43 anos e dois filhos. “Quando eu e meu irmão éramos pequenos, com 7 e 3 anos, ela se separou do meu pai e voltou a trabalhar e estudar. Era enfermeira e instrumentadora cirúrgica, o que exigia longas horas de jornada. Hoje percebo que ela era uma ‘faz tudo’, superperfeccionista. Queria que os filhos fossem os mais educados, a nossa casa a mais organizada e assim por diante”, conta. “ Os custos da revolução feminina foram altíssimos”, avalia Mary Del Priore, historiadora especializada no gênero feminino. “Não queremos mais ser pressionadas a fazer tudo. Vivemos agora uma ressaca desse movimento. E queremos uma configuração diferente.”
A transição
Na passagem do modelo multitarefa para o multi-interesse, continuamos conectadas aos múltiplos papéis, mas mais seletivas quanto às tarefas que queremos assumir – mais livres e menos sujeitas às pressões sociais. “As pesquisas recentes indicam que a mulher continua proativa e articulada no trabalho, porém não aceita mais abdicar da vida pessoal”, informa Lívia Barbosa, antropóloga e diretora do centro de estudos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo. Sandra Decó concorda. Aos 43 anos, casada e mãe de uma moça de 20, ela dirige o próprio escritório de advocacia, mas não é workaholic. Hoje sei que a realização pessoal precisa vir em primeiro lugar para que os outros aspectos também sejam satisfatórios. Mas cresci ouvindo da minha mãe que o trabalho era o mais importante e passei parte da minha vida acreditando nisso. Até descobrir que valia a pena me dedicar mais à família, aos amigos e a mim mesma”, afirma. Sim, dentro dessa nova lógica, a mulher está no centro – conectada aos seus desejos íntimos e valorizando muito a qualidade de vida. 
Voltemos então à anfitriã do início da matéria. Como ela se portaria nessa nova versão multi-interessada? Talvez combinasse de cada amiga trazer algo para o jantar ou até pedisse uma pizza. Afinal, sua meta seria se divertir, e não fazer uma recepção perfeita. Ela tem consciência de que sua energia é finita e dispõe-se a administrá-la de modo a não ficar exausta bem na hora de curtir a festa. Claro, parece fácil fazer essa transformação (de multitarefa para multi-interesse) quando se trata de um jantar, mas, quando entram em jogo maternidade, casamento, trabalho, dinheiro, fica mais complicado. Mas as chaves são as mesmas: priorizar, delegar, equilibrar. “É preciso dividir responsabilidades”, observa a empresária Adriana. “Eu me inspiro numa frase do ex-presidente Ronald Reagan: ‘Cerque-se das melhores pessoas, delegue autoridade e não interfira’.” Para ela, enxergar a capacidade dos outros e abrir mão de controlar tudo é libertador.
A evolução
Desde os anos 1960, não só as mulheres progrediram mas também os homens e toda a sociedade. “Os papéis se flexibilizaram. Eles hoje cuidam mais dos filhos e da casa, e isso faz parte da evolução”, julga Rosane Mantilla de Souza, professora titular da pósgraduação de psicologia clínica da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. Além disso, novas tecnologias facilitam a vida. “Na minha residência, posso ser mulher, mãe, profissional e dona de casa. Não preciso mudar de endereço para desempenhar funções diferentes, o que representa economia de tempo e de energia”, afirma Miriam Vasconcellos, 35 anos, advogada, que largou o emprego numa multinacional em São Paulo para trabalhar em esquema de home-office como consultora jurídica. Assim, ganhou três horas diárias (que “deixava” no trânsito), aproximou-se do filho, de 3 anos, e passou a fazer ginástica três vezes por semana. Toda escolha, porém, implica perdas. O dinheiro caiu pela metade e Miriam teve de renegociar com o marido a divisão das contas. Tornar-se dona do seu tempo e ganhar bem-estar era também a meta de Christina Vogler Rossatto, 48 anos. “Minha rotina era intensa. Além de cuidar da casa e dos meus filhos, fazia trabalhos filantrópicos e ainda acompanhava meu pai, que estava doente, em exames e consultas. Vivia estressada e em função dos outros”, lembra ela. Há seis anos, começou a praticar ioga, estabeleceu prioridades e diminuiu a autocobrança. “Hoje já sei em que quero investir minha energia, não preciso ser impecável em tudo.” Sobrou tempo para passear, encontrar as amigas, ler um livro. “Aprendi a me respeitar, a valorizar o meu tempo e a me acolher. Não sucumbo mais a todas as pressões, sigo meus valores.” A autoestima agradece.

6 passos para a virada


1 PRIORIZE E REORGANIZE

Nem todas as coisas são importantes ou urgentes. Pare de sonhar com um dia de 48 horas. O tempo tem limite e você também. Crie rotinas realmente viáveis. 

2 PEÇA AJUDA
Delegar e confiar são os atributos indispensáveis da mulher moderna e multi-interessada. 

3 DIGA NÃO
Você nunca poderá agradar a todo mundo o tempo todo. Nem precisa. Aprender a recusar é sinal inequívoco de sabedoria. 

4 PARE DE JULGAR
Procure cobrar menos de si mesma e dos outros. O alívio será imediato e perceptível. 

5 ADMINISTRE CONFLITOS
Eles não significam fracasso, apenas sinalizam que existem pessoas e interesses diferentes. Então, relaxe... 

6 CUIDE-SE
Para ser generosa, é preciso ter o que oferecer. Alimente sua força com bons tratos, bons filmes, livros e boas companhias... 

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